Fora do círculo dos literatos de ofício, quase todas as pessoas,
mesmo relativamente cultas, escrevem de maneira ingênua, usando as
primeiras palavras que lhes vêm à cabeça, confundindo o que sentem ao
escrevê-las com o que o leitor vai sentir ao lê-las. Sobretudo não
calculam o que o leitor malicioso pode fazer com as suas afirmações mais
cândidas e inocentes. O malicioso malicia por instinto, é impossível
detê-lo. O que se pode é escrever de tal modo que a tentativa de maliciar
se autodenuncie no ato, expondo o malicioso, quase que automaticamente,
a um ridículo ou a uma hostilidade ainda maiores do que ele quis impor à
sua vítima. Mas isso é uma habilidade propriamente literária, exige
anos de aprendizado. É por isso que recomento aos meus alunos abster-se
de polêmicas. Quando se saem mal numa discussão, imaginam que lhes
faltaram “argumentos”, quando noventa por cento das dificuldades não
estão nos argumentos, e sim na mera formulação inicial da tese.
Ainda sobre a expressão escrita. Vocês já repararam que nenhum dos meus
odiadores de estimação jamais DISCUTE o que eu digo, limitando-se antes a
roer pelas beiradas, seja falsificando as minhas palavras, seja me
atribuindo crimes e vícios imaginários nos quais só outros iguais a eles
acreditam?
É porque escrevo de modo a dissuadir antecipadamente os amantes de
discussões ociosas, carregando nas tintas da obviedade ao ponto de que
nenhuma objeção razoável lhes vem ao cérebro,
só emoções toscas e fantasias pueris que mal conseguem expressar sem
tropeços e incongruências de toda sorte. Isso me poupa trabalho, porque,
no caso de uma investida mais ambiciosa, bastam cinco ou seis linhas de
resposta para estourar um balão de muitas laudas.
A limitação intrínseca dessa técnica literária é que ela não funciona
com plateias de imbecis e analfabetos funcionais, mas isso não é um
grande problema porque certamente não é nesse tipo de platéias que
espero colher leitores e ouvintes
Por isso não posso dizer que meus escritos são sempre construtivos,
estimulando de maneira constante e invariável somente a inteligência dos
inteligentes. Ao contrário: com igual constância estimulam também a
imbecilidade dos imbecis, seja para revelá-la aos próprios olhos deles,
curando-os, seja para enroscá-los nela até que se enforquem nas suas
próprias tripas.
Uma decorrência inevitável do analfabetismo funcional é a “ignoratio
elenchi”, a incapacidade de apreender qual o ponto em discussão. Os
cretinos mergulham nela com entusiasmo e volúpia, caçando no fundo da
sua própria confusão, que imaginam ser o texto lido, mil e um detalhes
laterais, irrelevantes ou mesmo inexistentes, que possam alimentar
discussões sem fim sem chegar jamais a qualquer refutacão eficiente
daquilo que pretendiam demolir.
Até hoje aparecem bobocas defendendo
Isaac Newton contra aquilo que imaginam que eu disse “contra” ele. Como
aprenderam no ginásio que “ciência é experiência”, tosquíssima
meia-verdade que absorveram como mandamento divino, sentem obscuramente
que apontar qualquer elemento apriorístico numa teoria científica é uma
tentativa de refutá-la, o que, no caso de Newton, os revolta e indigna
até à apoplexia. É patético
Tem uns carinhas que, nada podendo alegar contra o que digo, batem o
pezinho indignados, bradando: “Olavo não é Deus!” Têm razão. Também não
sou o Lula.
O de C
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