domingo, 13 de março de 2016

Fora do círculo dos literatos de ofício, quase todas as pessoas, mesmo relativamente cultas, escrevem de maneira ingênua, usando as primeiras palavras que lhes vêm à cabeça, confundindo o que sentem ao escrevê-las com o que o leitor vai sentir ao lê-las. Sobretudo não calculam o que o leitor malicioso pode fazer com as suas afirmações mais cândidas e inocentes. O malicioso malicia por instinto, é impossível detê-lo. O que se pode é escrever de tal modo que a tentativa de maliciar se autodenuncie no ato, expondo o malicioso, quase que automaticamente, a um ridículo ou a uma hostilidade ainda maiores do que ele quis impor à sua vítima. Mas isso é uma habilidade propriamente literária, exige anos de aprendizado. É por isso que recomento aos meus alunos abster-se de polêmicas. Quando se saem mal numa discussão, imaginam que lhes faltaram “argumentos”, quando noventa por cento das dificuldades não estão nos argumentos, e sim na mera formulação inicial da tese.

Ainda sobre a expressão escrita. Vocês já repararam que nenhum dos meus odiadores de estimação jamais DISCUTE o que eu digo, limitando-se antes a roer pelas beiradas, seja falsificando as minhas palavras, seja me atribuindo crimes e vícios imaginários nos quais só outros iguais a eles acreditam?
É porque escrevo de modo a dissuadir antecipadamente os amantes de discussões ociosas, carregando nas tintas da obviedade ao ponto de que nenhuma objeção razoável lhes vem ao cérebro, só emoções toscas e fantasias pueris que mal conseguem expressar sem tropeços e incongruências de toda sorte. Isso me poupa trabalho, porque, no caso de uma investida mais ambiciosa, bastam cinco ou seis linhas de resposta para estourar um balão de muitas laudas.
A limitação intrínseca dessa técnica literária é que ela não funciona com plateias de imbecis e analfabetos funcionais, mas isso não é um grande problema porque certamente não é nesse tipo de platéias que espero colher leitores e ouvintes


Por isso não posso dizer que meus escritos são sempre construtivos, estimulando de maneira constante e invariável somente a inteligência dos inteligentes. Ao contrário: com igual constância estimulam também a imbecilidade dos imbecis, seja para revelá-la aos próprios olhos deles, curando-os, seja para enroscá-los nela até que se enforquem nas suas próprias tripas.

Uma decorrência inevitável do analfabetismo funcional é a “ignoratio elenchi”, a incapacidade de apreender qual o ponto em discussão. Os cretinos mergulham nela com entusiasmo e volúpia, caçando no fundo da sua própria confusão, que imaginam ser o texto lido, mil e um detalhes laterais, irrelevantes ou mesmo inexistentes, que possam alimentar discussões sem fim sem chegar jamais a qualquer refutacão eficiente daquilo que pretendiam demolir.
Até hoje aparecem bobocas defendendo Isaac Newton contra aquilo que imaginam que eu disse “contra” ele. Como aprenderam no ginásio que “ciência é experiência”, tosquíssima meia-verdade que absorveram como mandamento divino, sentem obscuramente que apontar qualquer elemento apriorístico numa teoria científica é uma tentativa de refutá-la, o que, no caso de Newton, os revolta e indigna até à apoplexia. É patético

Tem uns carinhas que, nada podendo alegar contra o que digo, batem o pezinho indignados, bradando: “Olavo não é Deus!” Têm razão. Também não sou o Lula.


O de C 
 

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