A realidade é matemática, a realidade é música, a realidade é
linguagem… Todas essas lindas afirmações são pensamento metonímico,
fruto do desejo histérico de reduzir a um fator controlável algo que nem
mesmo conseguimos apreender no todo. Seus autores são índios botocudos
buscando nas formas geométricas de potes e panelas um refúgio contra o
temor da floresta. Essas sentenças tornam-se verdadeiras quando as
invertemos: matemática é realidade, música é realidade, linguagem é
realidade. A realidade nos transcende e abarca, contém tudo e não se
reduzirá jamais a nada que possamos “pensar”.
Você não CONHECE sua mãe, sua namorada, seu pai, seu irmão, seus
amigos? Conhece. Agora diga: pode PENSÁ-LOS, abrangê-los mentalmente
como abrange o conceito de triângulo e defini-los como se define uma
palavra no dicionário? Não, não pode. Mutatis mutandis, isso se aplica
mais ainda à REALIDADE. Você pode conhecê-la, mas não pensá-la. Por isso
mesmo não pode reduzi-la a nada que se consiga “pensar”. De tentar
morreu um burro.
Conhecer a realidade não é espremê-la no pensável: é integrar-se nela
conscientemente e de todo o coração, como o nadador que conhece o mar
jogando-se nele sem medo das ondas.
A impotência gera o sonho de onipotência. Todo idealismo subjetivo —
sobretudo os disfarçados, tão comuns na modernidade — reflete um desejo
de fugir para um mundinho da nossa própria invenção. Não me curei disso
estudando, mas ficando perdido no mato por quatro dias. NADA ali era o
que eu pensava.
O de C
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