Se definitivamente a grandeza de uma obra
de arte não depende do estilo de época ou da corrente estética a que se
filia, havendo obras grandes e pequenas em todas as épocas e correntes,
de onde vem a mania de louvar romancistas, músicos ou pintores pela sua
“modernidade” e depreciá-los pelo seu “conservadorismo”? É obviamente
uma intrusão indevida de chavões “progressistas” num domínio ao qual
eles deveriam permanecer estranhos. Serve para fazer da crítica musical,
literária ou de artes plásticas um
instrumento auxiliar da luta ideológica, mas não para ajudar alguém a
entender alguma coisa. Georg Lukacs, crítico marxista, já assinalava
esse erro no caso de Thomas Mann, cujos romances, forjados nos modelos
consagrados do século XIX, nem por isso deixavam de ser
incomparavelmente superiores a qualquer produção das “vanguardas”. Li
hoje, com tédio indescritível, o ensaio de Leah Broad, vencedor do
Prêmio Anthony Burgess de 2015, no qual ela se dedica à tarefa
perfeitamente dispensável de “resgatar” Jan Sibelius mediante a
“revelação” da sua “modernidade”.
Um estilo de época abrange TODAS as obras do período, boas e más. Não pode, por si, fundamentar um julgamento de valor.
É a pergunta decisiva do Otto Maria Carpeaux: Quem, tendo de se refugiar numa ilha e podendo levar um único disco, escolheria um de música dodecafônica?
Admito, sem restrições, que tenho algumas ojerizas artísticas definitivas: Jazz, Igor Stravinsky, Picasso, João Cabral, concretismo e João Guimarães Rosa. Não me venham com explicações técnicas. Não nasci ontem, compreendo tudo isso muito bem, mas compreender não é justificar, nem muito menos apreciar. Compreendo perfeitamente o que é uma hemorróida.
No meu modesto entender, a crença de que a música é uma pura ordem matemática sem conexão com as sensações e emoções do ouvinte não é uma solução: é fugir do problema. É como achar que uma casa é um puro sólido geométrico sem conexão com as necessidades e conveniências do morador. É pensamento metonímico elevado ao ápice do fingimento histérico. Pode ser muito elegante, tecnicamente, mas tem na base uma negação da estrutura da realidade, uma impotência cognitiva. Daí o meu desprezo pelas ‘”vanguardas” em geral.
Fábio V. Barreto À
propósito, professor: tem alguma escola artística ou literária pela
qual o senhor tenha predileção ou o senhor vê escritores e artistas de
maneira mais individualizada, sem ligar tanto para qual corrente
pertencem?
Georg Lukacs estava certíssimo na sua crítica devastadora das vanguardas. Só errou ao achar que eram uma expressão do “capitalismo decadente”, quando entre os vanguardistas só se encontravam entusiastas do socialismo, do fascismo etc.
A realidade é matemática, a realidade é música, a realidade é linguagem… Todas essas lindas afirmações são pensamento metonímico, fruto do desejo histérico de reduzir a um fator controlável algo que nem mesmo conseguimos apreender no todo. Seus autores são índios botocudos buscando nas formas geométricas de potes e panelas um refúgio contra o temor da floresta. Essas sentenças tornam-se verdadeiras quando as invertemos: matemática é realidade, música é realidade, linguagem é realidade. A realidade nos transcende e abarca, contém tudo e não se reduzirá jamais a nada que possamos “pensar”.
O apóstolo matou a charada: N’Ele vivemos, nos movemos e somos.
Enquanto uns fulanos ficavam inventando “romances de vanguarda”, Thomas Mann e Jacob Wassermann criavam obras-primas imortais sem uma inovação técnica sequer. Quem, hoje, preferirá antes ler os livros de Michel Butor, Alain Robbe-Grillet ou Nathalie Sarraute do que “A Montanha Mágica” ou “O Processo Maurizius”? O problema do ultramoderno é a velocidade com que se torna ultra-passado.
O de C
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