terça-feira, 5 de abril de 2016

Para um movimento que começou exigindo a reforma integral do sistema brasileiro, o impeachment da Dilma é um miserável prêmio de consolação pelo adiamento "sine die" -- ou mesmo pela perda total -- dos seus objetivos maiores.

Agora que as outras chances foram perdidas, só nos resta apoiar o impeachment, mas em março de 2015 ele era a pior das alternativas, calculada especialmente para sacrificar uma engrenagem menor em troca da salvação do "estamento burocrático" inteiro. Não espanta que as estrelas maiores do impeachmentismo -- Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr. -- viessem de dentro do mesmo esquema que criou e alimentou o presente estado de coisas.

Não me venham com essa história de "é só o começo". Grandes mudanças têm de ser abruptas e traumáticas. A passagem do tempo, a consolidação da "normalidade", só fortalecem o estamento burocrático.

Tudo o que o estamento burocrático precisa para sobreviver indefinidamente é TEMPO. A "marcha para Brasília" e a concentração exclusiva no pedido de impeachment lhe deram esse presente.

O que o José Nêumanne disse ao ministro é certo, mas muito insuficiente. Em vez de acusar só os beneficiados do foro privilegiado, era preciso desmascarar logo os beneficiantes -- o STF inteiro. Apelando à ironia sutil em vez de falar logo o português claro, o comentarista deu ao ministro a chance de responder com um mero sorrisinho cínico, quando deveria sair dali chorando de ódio impotente. Mas o Brasil está tão por baixo que, quando vê alguém dando um tapinha com luvas de pelica, já sai festejando que foi um murro devastador.

"Cobrar dos políticos", quando era preciso destrui-los, tomar-lhes o poder, expulsá-los da vida pública, já é submissão. A alquimia do impeachmentismo transformou uma revolução num peditório humilhante.

À medida que o tempo passa, os objetivos do movimento popular se tornam cada vez mais modestos, e a força do estamento burocrático cada vez mais consolidada. No fim, o povo vai obter uma consolação simbólica e festejá-la como se fosse uma revolução salvadora.

Não se coloca uma multidão de dois milhões de pessoas protestando nas ruas para depois fazê-la esperar um ano ou dois até que os senhores políticos tenham a gentileza de atender a uma parcelinha das suas reivindicações. NINGUÉM em seu juízo perfeito faz isso, a não ser que seu objetivo seja salvar os políticos acima de tudo.

Se todo o esforço de milhões de brasileiros indignados resultar, no fim, em algo como a eleição da Marina Silva, só restará puxar a descarga e mudar de assunto.

 Os puros impeachmentistas servem a ESTA causa: manter o Brasil suspenso entre PT e PSDB como tem estado há trinta anos.

Gayzismo, abortismo, droguismo etc. são CLÁUSULAS PÉTREAS do pacto tucanopetista. Sacrificar a Dilma em troca da manutenção de tudo isso não chega sequer a ser um pequeno sacrifício: é um grande negócio.

O Raymundo Faoro morreu na esperança de que o PT destruiria o estamento burocrático. Ele compreendia perfeitamente o problema estrutural da política brasileira, mas, em matéria de estratégia comunista, era analfabeto. Foi um idiota útil "post mortem".

Os programas moderninhos como os que o FHC defende só servem para debilitar o Ocidente e facilitar a invasão islâmica. Você tem meia horinha de deslumbramento gayzista, droguista e feminista, então vêm os muçulmanos, matam todos os gayzinhos, drogadinhos e mulherzinhas enfezadas, e acabou a festa. Bella robba!

Sociedades baseadas na satisfação dos desejos serão sempre destruídas por aquelas que reprimem os desejos para acumular força.

Se os entusiastas do impeachment tivessem estudado René Girard, entenderiam que o sacrifício ritual do governante não se destina a mudar nada, mas a santificar e consolidar o estado de coisas.

O número de mesquitas e madrassas multiplica-se mais velozmente que o de saunas gays, clínicas de aborto e outras instituições moderninhas nas quais o Ocidente aposta o seu futuro.

Não venha com a história de que não pode dizer tais ou quais coisas porque então vai ser tachado de extremista, golpista, fascista, homofóbico, o caralho. Esses rótulos, hoje em dia, são a melhor prova de que você está no caminho certo. Você deveria ostentá-los com orgulho, precisamente porque expressam o oposto do que você é. Fugir deles JÁ É cair na "espiral do silêncio".

Se você pensa que ficando quietinho vai se livrar de rotulações pejorativas, é isso mesmo o que os rotuladores querem que você pense. Por isso a espiral do silêncio se chama espiral do silêncio.

FHC diz que o PT não deve ser destruído; Temer promete que não o será. Em troca disso, sacrificar a Dilma é um GRANDE NEGÓCIO. É por isso que, se apóio o impeachment, é sem NENHUM entusiasmo. Não estou tão necessitado de ilusões ao ponto de consentir em chamar uma migalha de banquete,

Em março de 2015, o povo brasileiro teve seu destino nas próprias mãos por um breve instante. Graças à burrice de uns e à esperteza de outros, acabou por entregá-lo nas mãos de tipos como Teoriza Vacas e Renan Caralheiros. O que ameaçava ser um estrondo de canhão transmutou-se num mimoso peidinho. Os autores dessa desalquimia merecem tanto desprezo quanto os petistas.


O de C



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