terça-feira, 5 de abril de 2016


Sartre explica o "post coitum triste" como resultado da vergonha que o "para si" (consciência) sente por haver sacrificado sua liberdade às exigências do "em si" (corpo). Mas quem disse que a compulsão sexual vem do puro corpo? Onde surgem as imagens sensuais e oníricas que nos põem no encalço da satisfação sexual? Se fosse no corpo enquanto tal, separado da consciência, nem repararíamos nelas, como não reparamos no funcionamento das nossas glândulas de secreção interna. É na consciência que surge e se elabora o desejo, que em seguida o ambicioso "para si" incumbe o inocente "em si" de realizar para satisfazê-lo. A consciência pode deleitar-se em fantasias sexuais por horas e dias seguidos, mas o corpo é débil e só pode satisfazê-las por uns poucos segundos. O "post coitum triste" expressa apenas a decepção da presunçosa consciência com o pobre instrumento carnal que não consegue jamais realizar satisfatoriamente as suas ambições.

Em comparação com as fantasias que o preparam, todo orgasmo é michuruco por definição.

Sendo a forma do corpo, a alma contém em si, de maneira simultânea,todas as possibilidades do corpo, mas ele, não sendo determinado só por ela e sim por todo o quadro espaço-temporal da existência terrestre, só pode realizá-las em escala muito limitada e um pouquinho de cada vez. A tristeza da alma no mundo terrestre não vem de que ela "se aliene" no corpo, mas de que o corpo a frustra e decepciona continuamente, por ser desprovido daquele toque de imortalidade que a alma antevê em si mesma e do qual ela desejaria, em vão, que o corpo desfrutasse também. O "post coitum triste" vem do fracasso de um sonho de imortalidade física que se desfaz repentinamente após o orgasmo. Se em vez de raciocinar dedutivamente a partir dos conceitos de "em si" e "para si", Sartre tivesse seguido a lição de seu mestre Husserl e examinasse a experiência real, teria compreendido isso.

O corpo é somente a versão espaço-temporal da alma imortal. Ela o abrange e transcende. Ele a manifesta mas não a abrange nem muito menos esgota.

É uma sabedoria instintiva da língua portuguesa o uso da palavra "acabar" como sinônimo de "ter um orgasmo". O orgasmo é o fim de um sonho. Qualquer pessoa com alguma experiência da vida sabe que um sonho de amor JAMAIS se realiza no ato sexual, e sim apenas na devoção diária ao bem do ser amado. Quem espera muito do sexo não saiu da adolescência.

Lucas Soares Professor, sobre esse assunto de corpo e alma, queria tirar uma dúvida. A alma é a substância ou faz parte dela?
Olavo de Carvalho
Olavo de Carvalho Nem o corpo nem a alma são substâncias. Substância é o ser humano.


O de C

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