A única maneira de desfazer a rede infernal de confusões e
deformações que os devotados historiadores da minha carreira de crimes,
desvarios, perversões e iniqüidades criaram em torno do que imaginam ter
sido a minha vida seria contar cada episódio tim-tim por tim-tim, isto
é, escrever a minha autobiografia com narcisística profusão de detalhes.
Não me sinto nem um pouco inclinado a desperdiçar o meu tempo e o do
leitor com essas ninharias a que só um demente obsessivo ou um difamador
profissional muito bem pago daria atenção. Deixarei, pois, tudo como
está e continuarei concentrando meus neurônios em coisas de maior
relevância.
Na verdade, em geral só conservo na memória os episódios cômicos. Uma
vez, um sujeito ligado a uma quadrilha de estelionatários contra a qual
eu era testemunha num inquérito me telefonou dizendo que ia comer o meu
cu. Respondi:
-- Talvez, mas o seu eu já comi, pois aqui ao lado há
uma pessoa gravando este telefonema e amanhã a gravação estará nas mãos
do delegado.
Clic! Desligou.
O de C
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