quarta-feira, 6 de abril de 2016

Se algo na ciência política eu desprezo um bocado, é a busca de "leis", "constantes", médias estatísticas -- ou seja, de tudo aquilo que, aos olhos do provincianismo acadêmico, lhe dá ares de ciência. Tudo o que um cientista político pode fazer com proveito é investigar a lógica interna de certos processos históricos, sociais e culturais politicamente relevantes e, mediante um jogo de distinções baseado em essência na teoria dos quatro discursos de Aristóteles, prever com acerto suficiente os seus desenvolvimentos certos, prováveis, verossímeis ou meramente possíveis. Também não acredito que esta ciência possa ser empacotada num conjunto de fórmulas e ser ensinada a qualquer um indistintamente por mera absorção intelectual dos seus conteúdos. Há certas qualidades psicológicas, morais e espirituais que têm de ser desenvolvidas no estudante antes mesmo que ele se aventure a entrar neste estudo. Um exemplo bastará para ilustrar isso. É impossível compreender as decisões e ações de um indivíduo ou grupo sem ter a medida do seu "horizonte de consciência" (um conceito que trabalhei longamente nos meus cursos), e é impossível abranger um horizonte de consciência desde um horizonte de consciência mais estreito. O cientista político, por isso, tem de estar um pouco acima, na escala cognitiva, dos agentes políticos cujas ações pretende compreender. Este "acima" supõe não apenas um estoque superior de conhecimentos, mas um nível mais alto de integração da consciência -- um fator que todo ensino acadêmico ignora quase que por obrigação regulamentar.

Se os acontecimentos de grande impacto pudessem ser explicados pelas supostas causas históricas gerais que os antecederam, todos teriam sido previstos, e o fato é que não o são praticamente nunca, ao menos pelos "cientistas sociais" que com tanta desenvoltura os explicam depois.

Em suma: se nada existisse de casual, imprevisível e imponderável, tudo seria sempre como antes. Eis por que a noção de "leis históricas" não faz sentido.

O de C

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